A adaptação de uma obra de qualquer natureza a uma mídia diferente permite ao autor da mesma fazer sua própria leitura e (por que não?) modificar a obra atendendo ao anseio de um público diferente. No caso de uma obra datada como O Estrangeiro, o anseio a ser atendido é a necessidade de atualizar uma história escrita numa época em que o colonialismo e o machismo eram mais banalizados.
A versão do clássico de Albert Camus realizada pelo cineasta François Ozon, que estreou este mês nos cinemas brasileiros, se mostra um pouco contido em se permitir essa atualização do argumento para dialogar com um público que vive numa época onde o colonialismo é rechaçado como conceito – a partir de um sentir social que se instalou no mundo poucos anos depois da publicação do livro, em 1942, e que ainda se mantém mais ou menos vigente, apesar do esforço da extrema direita em resgatar velhas percepções.
O talento de Ozon para a narrativa e cinematografia valem o filme, e a importância de revisitar e rediscutir uma obra clássica, ainda que controversa (ou justamente por ser controversa pros tempos atuais), o tornam até necessário, a partir de uma proposta que claramente se esmera em ser o mais fiel possível ao texto original.
Por exemplo, a fotografia em preto e branco é somente uma das vias pelas quais tenta-se transportar o expectador à Argélia dos anos 30, colonizada pela França pré-ocupação nazista, para ambientar a história à época e lugar em que foi escrita.
Porém, os momentos em que o filme brilha são as poucas vezes em que ousa ir além do original e mostrar algum questionamento ao racismo que os colonos pied-noir franceses dedicavam aos argelinos – e, de quebra, questionar esse mesmo racismo por parte do autor do livro.
Quando ousa dar o nome de Djemila à personagem que no livro é mencionada apenas como “a amante do vizinho”, e de Moussa ao personagem do irmão dela – que também não tem seu nome mencionado em nenhuma linha do texto de Camus, mesmo sendo a vítima do homicídio que se transforma no acontecimento central da trama –, Ozon se diferencia do escritor, e o faz sem deixar de refletir a xenofobia dos colonos e sua forma de tratar os argelinos de forma depreciativa, como “árabes” ou “nativos”, ou de relativizar seus direitos em comparação aos dos pied-noirs franceses.
Tudo isso sem prejudicar o tema principal da história, a amoralidade do protagonista, capaz de cometer um assassinato sem nenhum motivo aparente. Pelo contrário, talvez o torne ainda mais evidente, por sua tolerância aos abusos cotidianos que Argel sofria nos tempos do racismo colonial francês, e também por sua indiferença e cumplicidade com a violência brutal que seu vizinho infringe a Djemila, e por sua própria postura indolente para com uma namorada que se humilha de amor diante dele.
As relações pseudoafetivas retratadas no filme podem ser, possivelmente, o gatilho de seu pior efeito colateral. Esses dois personagens, o protagonista e seu vizinho, têm grande potencial pra se tornarem ícones do movimento redpill. Nos resta torcer pra que os seguidores dessa seita sequer vejam o filme, por ser em preto e branco, ou que não entendam caso assistam – não seria surpresa, nenhuma das duas coisas.
Ozon também tenta suavizar, no diálogo do protagonista com o capelão, o arquétipo do personagem sem alma mostrado nas cenas em que ele humilha a namorada e na controvérsia judicial sobre “o homem que não é capaz de chorar no funeral da própria mãe”, mas também desperdiça a oportunidade de ir além da obra original e fazer um debate mais amplo – e, novamente, acaba deixando traços argumentativos que podem municiar um discurso de extrema direita.
Ainda assim, é correto dizer que O Estrangeiro de Ozon tenta atualizar o livro de Camus. Talvez pudesse ter ido além no posicionamento sobre certos temas, mas entrega uma versão menos ambígua que a do livro original, e isso tem o seu mérito.
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