No debate contemporâneo sobre tecnologia, é corrente o uso de metonímias e metáforas para abordar problemas complexos que envolvem diversas camadas técnicas, sociais, culturais, e político-econômicas. Isso é compreensível, é mesmo uma característica da linguagem, especialmente quando tratamos de algo com implicações tão amplas e de magnitudes tão diversas. Os impasses tecnológicos hoje, especialmente nos campos que tangenciam a digitalização, envolvem diversos aspectos e crises com implicações tão profundas, o que impõe um verdadeiro desafio para a nossa capacidade imaginativa em minimamente representá-los. Não dispomos de um mapa cognitivo comum, capaz de lidar com os diversos planos desse território fragmentado.
As discussões transitam em torno dos algoritmos, das Inteligências Artificiais, do acúmulo de telas, da desinformação, desatenção, das Big Techs, dos recurso naturais, das políticas de regulamentação, das bolhas econômicas… Todas elas imbricadas, mas com implicações diferentes; perspectivas distintas – pois partem de problemas distintos – sobre um hiper-objeto, que parece impossível de ser abarcado em sua totalidade. Relações de correlação e causalidade tornam-se confusas, explicações parecem se sobrepor umas às outras, mas com pressupostos distintos e, por vezes, radicalmente conflitivos.
Dois exemplos comuns de abordagem dos problemas, por vias distintas, são: a representação dos impactos culturais e subjetivos da digitalização pela relação com as telas; e a categorização das tecnologias de IA enquanto “meras” ferramentas. Esses dois tipos de abordagem costumam tocar em problemas reais, mas partem de pressupostos conturbados e encontram problemas que essas abordagens não conseguem lidar ou mesmo reconhecer.
A abordagem instrumentalista das IAs geralmente compreende a questão separando a tecnologia da realidade histórica e social que a produziu, e também da realidade que ela mesmo passa a compor e produzir. Ou seja, parte de um pressuposto tecnicista que acaba por substancializar a própria tecnologia, correndo o risco de reduzir a política à técnica, ignorando as implicações inscritas na própria forma que as tecnologias assumem. Essa posição ignora também o grau de complexidade sistêmica que a digitalização realmente existente abarca, não podendo ser reduzida a um mero conceito ferramental, mas determinando de forma crucial o modo de organização social da economia política, da subjetividade e da cultura.
Essa abordagem instrumentalista está implicada em diversos impasses para pensarmos e realizarmos uma digitalização emancipada, que percorrem os problemas anteriormente abordados nesta coluna – por exemplo acerca das experiências soviética, com o projeto do OGAS; e chilena, com o CyberSyn. Ela também aparece no cerne do recente debate, estabelecido no começo do ano, entre Evgeny Morozov e Aaron Benanav, onde Morozov questiona justamente as dicotomias presentes em parte do pensamento socialista acerca das relações entre técnica e política, colocando a primeira em uma dimensão instrumental e neutra, perdendo de vista a necessidade de superar também (falsa) distância entre economia e política, ponto fundamental de qualquer projeto socialista. Tecnologias digitais contemporâneas integradas sistemicamente hoje, como é o caso do aprendizado profundo de máquinas e inteligências artificiais, tiram tais agentes do quadro “ferramental” – essas tecnologias não podem ser compreendidas mais como meras ferramentas, mas enquanto produtoras do mundo, agentes sociais de organização da vida.
A abordagem que poderíamos chamar de metonímica compreende o problema da digitalização abarcando efeitos observáveis em uma determinada margem de sua expressão: a relação dos usuários com as telas dos dispositivos. Essa é uma abordagem importante e sua possibilidade de observação “imediata” possibilita o levantamento de diversos sintomas do problema. O perigo aqui é tomá-los enquanto causa, fragmentando o quadro de uma percepção ampla da situação. Encontramos, assim, explicações que incorrem em diversos tipos de reducionismo, que podem ser de tipo sociológico (estamos isolados pelas telas, a interação digital substituiu a presença real); passando pelo reducionismo psicológico (vivemos a era da dissonância cognitiva, com a desatenção, perda de foco e de memória, produzidas pelas telas); até mesmo um reducionismo fisiológico (há uma epidemia do vício de dopamina, que se reflete no aumento do tempo de tela dos usuários e sua dependência do aparelho).
Nessa abordagem há algo de sedutor, na medida em que se enquadram os problemas de modo ilustrativo, com a capacidade de tangenciar questões reais de modo palpável. Todavia, seus riscos são amplos: essa redução fisiológica do vício em dopamina, por exemplo, se não ignora a arquitetura das próprias interfaces, acaba ignorando a tendência sistêmica cada vez maior de concentrar quase todas as dinâmicas da vida na própria tela de bolso – trabalho, lazer, comunicação, rotina, calendário, planejamento, finanças… Todos os aspectos da vida acabam reduzindo-se à tela, justamente porque as dimensões “extra-digitais” são minadas. Os aspectos da vida social para além do digital seguem sendo reduzidos e negligenciados, especialmente no caráter racial e classista da urbanização capitalista: possibilidades de lazer em espaço aberto, arborizado, com caráter de fomento da convivência coletiva, com incentivo à cultura… Todas essas coisas tornam-se clivadas por fatores políticos e econômicos, restando às telas o apelo aparentemente “gratuito” – ou menos custoso – e prático de cumprir as funções de distração e subjetivação caras à reprodução social.
Novamente, setorizar os aspectos de análise – algo metodologicamente válido, por vezes – pode incorrer na perda da totalidade fundamental à consideração crítica de um objeto complexo. Compreender o processo de digitalização leva-nos então à consideração dos seus aspectos históricos, político-econômicos, subjetivos e – em certa medida – ontológicos. É preciso voltarmos à “questão da tecnologia” parafraseando a famigerada máxima heideggeriana. Mas precisamos compreendê-la criticamente, como o desdobramento e a radicalização de processos em curso desde meados do século XX: a digitalização global aponta para a fragmentação de distinções dualistas que tornam-se cada vez mais desgastadas, senão obsoletas. Público e privado, lazer e trabalho, local e global: são estas distinções que precisam ser observadas, na medida em que tornam-se o próprio alvo da arquitetura digital.
Outro aspecto central que não pode ser negligenciado é a militarização do tecido digital, que torna cada vez mais obsoleta a distinção entre guerra e paz, ou entre civil e militar. Sem esse fator, combinado à crise do capital, somos incapazes de compreender as determinações em jogo nas dinâmicas da digitalização realmente existente. A recente manifestação da empresa Palantir no antigo Twitter é um índice explícito dessa tendência: com um resumo esquemático em 22 pontos de sua ideologia política, já bem explícita no livro The Technological Republic, de Alex Karp e Nicholas Zamiska, encontramos ali tanto uma espécie de “crítica” fascistóide ao multiculturalismo (neo)liberal, que assolou hegemonicamente o Ocidente especialmente após a queda do muro de Berlim, quanto um programa político de participação “espiritual” dos bilionários das Big Tech na manutenção tanto dos EUA quanto do próprio Ocidente.
Dentre os pontos que chamam a atenção, estão não apenas a defesa da participação de bilionários na vida política do país de forma explícita – ou seja, radicalizar ainda mais seus poderes sobre as instituições públicas –, mas também a apologética das armas de IA, anunciando, assim, o que chama de “fim da era atômica”, que é acompanhada também de uma crítica da “intolerância às crenças religiosas.” A retórica bélica sempre foi um marco tanto de Karp quanto da empresa, dado também o mercado no qual atua (a venda de software militar para operações imperialistas/coloniais).
Todavia, o que deveria chamar mais atenção é a relevância explícita dada à centralidade dos softwares na nova era, supostamente “pós-atômica”, para o exercício do poder. Se engana quem toma isso apenas como retórica de mercado – obviamente, uma empresa de softwares bélicos irá advogar pela centralidade dos seus produtos para a manutenção da hegemonia estadunidense/ocidental, mas para além disso, cada vez mais as disputas globais por poder irão passar diretamente pela hegemonia tecnológica em softwares, e isso está intimamente ligado às consequências militares, políticas e diplomáticas da era atômica.
É notável também a passagem do primeiro ponto (a dívida moral do Vale do Silício com os EUA) para o décimo sétimo (o Vale do Silício deve atuar contra crimes violentos). Vistos de modo justaposto, estes pontos indicam o tipo de protagonismo não só externo (transnacional), mas também interno que tais empresas pretendem assumir: uma participação direta na distribuição e administração pública da violência através de empresas privadas. A famosa máxima weberiana que define o “monopólio da coerção física pelo Estado” encontra-se, definitivamente, ameaçada.
Este tipo de posicionamento já prenuncia a tônica das disputas de poder dentro do arranjo denominado pelo Estado norteamericano de Pax Silica. Um novo arranjo que precisa ser pensado à luz das crises do capital, em especial a crise de 2008 que desencadeou o zênite do crescimento movido por dívidas, especulação financeira e salvacionismo estatal. A resposta estadunidense para tal impasse da acumulação é uma nova era de pilhagem “neocolonial”, que tem nos dados e nos recursos para as tecnologias do Silício sua “matéria prima.” Toda crítica das tecnologias deve ter esse enquadramento em foco, sob o risco de despolitizar a tecnologia ou reduzi-la metonimicamente aos efeitos locais, descontextualizados do frame maior.
A nova era tecnológica, com as IAs e as implicações geopolíticas futuras da computação quântica, por exemplo, precisam ser compreendidas nesse contexto, levando em conta a digitalização enquanto um processo totalizante. Ela impõe a superação de visões meramente instrumentais e demonstra como datado qualquer pensamento que separe técnica e política. Os bilionários das Big Techs, por mais imersos que estejam em discursos escatológicos delirantes ou visões distópicas tecno-feudais, já compreenderam isso, enquanto boa parte do campo “progressista” segue em seu sono dogmático.
(*) Cian Barbosa é morador do Rio de Janeiro, sociólogo (UFF), doutorando em filosofia (UNIFESP) e psicologia (UFRJ). Pesquisa teoria do sujeito, crítica da cultura, violência, tecnologia, ideologia e digitalização; também é integrante da revista Zero à Esquerda, tradutor e ensaísta, além de professor e coordenador no Centro de Formação.
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