Há 44 anos, em 24 de abril de 1982, falecia o historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, um dos maiores intelectuais brasileiros do século 20. Sérgio Buarque de Holanda foi um dos responsáveis por introduzir o estudo de Max Weber no Brasil, ajudando a alicerçar a sociologia científica no país.

Sérgio Buarque de Holanda: o intérprete das raízes brasileiras

Historiador e sociólogo brasileiro, introduziu o estudo de Max Weber no Brasil, tornando-se um dos principais contribuintes para os estudos historiográficos do Brasil Colônia.

Contribuiu enormemente com os estudos historiográficos do Brasil Colônia e estabeleceu-se como um dos maiores intérpretes da formação social do Brasil e da mentalidade do povo brasileiro, produzindo uma perspectiva que, mesmo não sendo unânime, mantém-se como basilar para a compreensão do país.

Juventude e formação

Sérgio Buarque de Holanda nasceu na cidade de São Paulo em 11 de julho de 1902. Ele era filho do farmacêutico Cristóvão Buarque de Holanda e da dona de casa Heloísa Gonçalves Moreira. Cresceu no bairro da Liberdade e teve acesso a uma educação de excelência, frequentando a Escola Caetano de Campos e o Ginásio São Bento, onde foi aluno do célebre historiador Afonso d’Escragnolle Taunay.

Aos 18 anos, Sérgio começou a trabalhar como jornalista, escrevendo textos para o Correio Paulistano. Em 1921, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde passou a atuar como crítico literário e editor. Tomou parte do movimento modernista em 1922, aproximando-se de Mário de Andrade e Oswald de Andrade e assumindo a função de representante da revista “Klaxon”.

Sérgio também escreveu para a revista “Estética”, onde defendeu a ruptura com os cânones da academia e a valorização das raízes brasileiras. A colaboração com a vanguarda modernista teria grande impacto sobre as suas análises históricas acerca da identidade brasileira.

Após graduar-se em Direito pela Universidade do Brasil (atual UFRJ), Sérgio se mudou para Berlim, onde atuou como correspondente dos Diários Associados e analista político dos acontecimentos na Alemanha, Polônia e União Soviética.

Durante sua estadia na Europa, o brasileiro aprofundou seus estudos em história e ciências sociais, além de traduzir obras alemãs para o português. Entrou em contato com os textos de Max Weber, que teriam profunda influência sobre sua formação. Também viveu um breve relacionamento com Anne Margerithe Ernst, mãe do seu primeiro filho, o cantor Sergio Gunther.

Raízes do Brasil

Em 1931, em meio à ascensão do nazifascismo na Europa, Sérgio decidiu retornar ao Brasil. Ele fixou residência no Rio de Janeiro e deu continuidade à carreira de jornalista, escrevendo para o “Jornal do Brasil” e outros veículos.

Em 1936, assumiu o cargo de professor assistente da extinta Universidade do Distrito Federal (UDF). Casou-se nesse mesmo ano com a pianista Maria Amélia Alvim, com quem teve sete filhos — o economista Sérgio Filho, o advogado Álvaro Augusto, a fotógrafa Maria do Carmo e os músicos Ana de Hollanda, Cristina Buarque, Miúcha e Chico Buarque.

Ainda em 1936, Sérgio publicou o livro Raízes do Brasil, um clássico da historiografia brasileira e obra fundamental dos estudos sociológicos nacionais. Na obra, o autor investiga as origens da sociedade brasileira a partir da colonização portuguesa, rejeitando as visões românticas e racialistas ainda predominantes nos círculos acadêmicos.

“Raízes do Brasil” parte da teoria weberiana para analisar os reflexos da estrutura política e sociocultural do sistema colonial português na formação da sociedade brasileira, interpretando o surgimento do patriarcado rural, estabelecendo novos conceitos e modelos explicativos sobre a passionalidade do povo brasileiro (“homem cordial”) e analisando o fenômeno da subordinação da esfera pública aos interesses privados da classe dominante (“patrimonialismo”).

O livro traz a defesa da superação das heranças coloniais como condição necessária para a construção de uma ordem social baseada em normas impessoais, racionalidade administrativa e cidadania efetiva. A despeito das críticas posteriores apontando seu influxo eurocêntrico, “Raízes do Brasil” teve enorme importância para a atualização dos debates sobre a identidade nacional.

Outras obras e contribuições à historiografia

Em 1941, Sérgio viajou para os Estados Unidos, onde atuou como professor visitante em diversas universidades. Em 1944, lançou “Cobra de Vidro”, uma compilação de ensaios e artigos publicados na imprensa nas décadas anteriores. No ano seguinte, publicou o livro “Monções”, analisando a expansão territorial e a colonização do interior do Brasil.

Sérgio colaborou como crítico literário para diversos jornais e revistas e foi um dos fundadores da Associação Brasileira de Escritores. Também trabalhou no Instituto Nacional do Livro e na Biblioteca Nacional.

Em 1946, o escritor retornou a São Paulo, assumindo a direção do Museu do Ipiranga. Ficou neste cargo até 1956, tendo sido responsável por empreender uma abrangente reforma museológica que conferiu à instituição o atual caráter de museu histórico.

Em paralelo, Sérgio ocupou o posto de professor na cátedra de história econômica na Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Viajou para a Itália em 1953, onde permaneceu por dois anos lecionando na Universidade de Roma.

Em 1958, Sérgio assumiu a cadeira de História da Civilização Brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). No mesmo período, publicou “Caminhos e Fronteiras” e “Visão do Paraíso”, ambos abordando temas relacionados à colonização do Brasil.

O intelectual foi eleito membro da Academia Paulista de Letras em 1958 e homenageado com o Prêmio Edgar Cavalheiro do Instituto Nacional do Livro. Em 1960, tornou-se coordenador do projeto “História Geral da Civilização Brasileira”, para o qual contribuiu com diversos escritos.

O projeto teve grande importância para a renovação da historiografia nacional, incorporando perspectivas sociais sob uma abordagem inovadora, valorizando a cultura material, o cotidiano e o papel desempenhado pelo povo comum na construção da história.

Sérgio também foi responsável por fundar o Instituto de Estudos Brasileiros da USP em 1962. O IEB-USP se consagraria como uma das mais importantes instituições dedicadas ao estudo da cultura, da história e da sociedade brasileira, além de ser guardiã de um dos mais ricos acervos documentais e bibliográficos do país.

O golpe de 1964 e os últimos anos

Após o golpe militar de 1964, Sérgio atuou como professor convidado em diversas universidades estrangeiras e integrou as missões culturais da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) na Costa Rica e no Peru.

De volta ao Brasil, demitiu-se da USP em 1969, em protesto contra a promulgação do Ato Institucional N.º 5 (AI-5), que havia cassado os direitos políticos e determinado a aposentadoria compulsória de vários de seus colegas professores. Ao lado de Oscar Niemeyer e outros intelectuais, ingressou no Centro Brasil Democrático (Cebrade), organização de oposição à ditadura militar vinculada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Mesmo desligado da USP, Sérgio seguiu atuando como tradutor, articulista, ensaísta e editor ao longo dos anos setenta. Em 1972, publicou “Do Império à República”, obra de história política que aborda a crise do Império do Brasil no final do século 19. Também lançou “Vale do Paraíba – Velhas Fazendas” e a coletânea “Tentativas de Mitologia”.

Sérgio voltou a lecionar como professor visitante nas universidades de Nova York, Columbia, Yale e Harvard e permaneceu intelectualmente ativo até o fim da vida. Foi condecorado com o Prêmio Juca Pato da União Brasileira de Escritores e com o Prêmio Jabuti de Literatura da Câmara Brasileira do Livro.

Em 1980, Sérgio se destacaria como um dos membros fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT). O intelectual participou do ato de fundação da agremiação no Colégio Sion e recebeu uma das primeiras carteiras de filiação do partido. Faleceu dois anos depois, em 24 de abril de 1982, aos 79 anos.

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