As consequências econômicas da guerra dos Estados Unidos contra o Irã já estão sendo sentidas diretamente pelos consumidores norte-americano, sobretudo no custo da energia. Segundo o jornal New York Times, o preço médio da gasolina ultrapassou os 4 dólares (R$ cerca de 20) por galão no final de março, um patamar que não era registrado desde agosto de 2022. Desde o fim de fevereiro, o combustível acumula alta de cerca de 35%, de acordo com dados da associação automobilística AAA.

A escalada rápida já pressiona o orçamento das famílias e começa a alterar hábitos de consumo em diferentes regiões do país. Em Nova York, por exemplo, moradores e visitantes relataram como percebem, ou esperam perceber, os efeitos da guerra no dia a dia.

Kristen, que trabalha na administração de uma Universidade em Massachusetts, afirma que o impacto é mais imediato em regiões dependentes do transporte individual. “Lá onde eu moro, precisamos dirigir para trabalhar. Não temos transporte público. O preço da gasolina subiu cerca de um dólar por galão desde o início da guerra. Isso é enorme”, disse ela que, como a maioria dos entrevistados, preferiu não revelar o sobrenome por medo de retaliação.

A administradora também destaca o efeito indireto sobre o custo de vida. “A maioria das casas nos Estados Unidos usa gás natural ou óleo para aquecimento. Isso também está subindo, e o inverno ainda não acabou”.

Para o economista ambiental e morador de Nova York Joel, a guerra agrava um cenário já pressionado pela inflação. Ele critica a condução do conflito e seus efeitos econômicos.

“Eles não sabem por que estão lutando essa guerra. Isso só faz os preços subirem para tudo. Quem ganha com isso? A Rússia, que pode vender mais petróleo. Ninguém mais”, afirmou. Sem carro, Joel disse sentir menos o impacto imediato, mas reconheceu que os efeitos são generalizados.

Já o designer de arquitetura Michael avaliou que o impacto tende a ser desigual e mais severo fora dos Estados Unidos. “Para mim, pessoalmente, ainda não é tão pesado, e isso é um privilégio. Mas para meus funcionários e para projetos ao redor do mundo, já dá para ver os problemas surgindo. Isso vai ser uma grande pressão econômica, não só para os Estados Unidos, mas ainda mais para países em situação mais vulnerável”, completou ele que vive em Minneapolis.

Fora de Manhattan, a percepção dos norte-americanos não é muito mais otimista.

No Queens, a diarista Silvia relaciona diretamente o conflito à alta global dos preços, especialmente de alimentos. “O petróleo vai encarecer tudo. Vai ficar quase impossível”. Para ela, o ponto central está no Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte de petróleo e insumos. “Por ali passam navios com alimentos e produtos. Se isso fecha, falta fertilizante, falta tudo. O controle da economia não está nos Estados Unidos, está naquela região”, disse.

A percepção de encarecimento já aparece no cotidiano dos consumidores. No Brooklyn, enquanto abastecia o carro, o produtor musical Misael Hessel relatou o aumento imediato nos gastos. “Coloquei 42 dólares (R$ 211) agora. Normalmente gasto 32 dólares (R$ 160)”.

Ele também apontou a alta nos preços de alimentos e serviços. “Tudo está mais caro. Comida, gasolina, tudo. Isso deveria preocupar todo mundo”.

As falas refletem um sentimento ainda difuso, mas crescente, de que a guerra saiu do campo geopolítico e se traduziu em impacto direto no custo de vida e com potencial de se intensificar nos próximos meses.

Especialistas veem impacto direto no consumo e risco de inflação

Os relatos de consumidores encontram respaldo em dados recentes sobre o humor econômico nos Estados Unidos. Um levantamento da Universidade de Michigan mostra que a confiança do consumidor caiu 6% em março, atingindo o nível mais baixo desde dezembro de 2025. Esse movimento teria começado logo após o início das ações militares relacionadas ao conflito com o Irã.

A pesquisa também indica que a alta dos combustíveis já começa a afetar as decisões de consumo. A disposição para gastar diminuiu, inclusive entre grupos que vinham sustentando o crescimento econômico, como consumidores de maior renda.

Além disso, quando se trata das consequências a longo prazo, há um efeito desigual entre as diferentes camadas da população. Famílias de baixa renda tendem a sentir mais intensamente o impacto do aumento da gasolina, já que os gastos com energia representam uma parcela maior do orçamento.

Já entre consumidores de maior renda, o impacto vem também da volatilidade dos mercados, que afeta investimentos e patrimônio. Apesar da piora no curto prazo, ainda há incerteza sobre a duração do choque.

No setor varejista, empresas já começam a se preparar para possíveis efeitos na cadeia de suprimentos. A Federação Nacional do Varejo (NRF) afirmou que as companhias estão monitorando o impacto do conflito junto a fornecedores e transportadoras.

Em comunicado, o vice-presidente de política de cadeia de suprimentos da entidade, Jonathan Gold, disse que algumas transportadoras já começaram a aplicar tarifas emergenciais, enquanto crescem as preocupações com atrasos e aumento de custos logísticos.

Apesar disso, a entidade projeta crescimento de 4,4% nas vendas do varejo em 2026, indicando que, por ora, o setor aposta na resiliência do consumo.

O cenário, no entanto, permanece condicionado à evolução do conflito. Caso a alta da energia se prolongue e comece a contaminar outros preços, economistas alertam que o impacto pode ir além da percepção dos consumidores e se traduzir em uma nova pressão inflacionária, com efeitos diretos sobre juros, crédito e crescimento econômico.

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