Comecemos este artigo admitindo que, infelizmente, o proposto no título não vai acontecer. A Palestina não vai herdar a vaga do Irã na Copa do Mundo de 2026, caso a federação de futebol da República Islâmica torne efetiva sua desistência do torneio.
O objetivo deste texto é demonstrar que, mesmo sem conseguir a vaga, a Palestina, mas que qualquer outro país, é quem merece estar no torneio, partindo da questão principal: sua estreia em uma Copa do Mundo, meses depois de um genocídio – que foi interrompido, mas que não acabou de todo –, seria um dos acontecimentos esportivos mais importantes da história.
A presença de um selecionado palestino na Copa mobilizaria não só os palestinos residentes nos Estados Unidos, México e Canadá como simpatizantes da causa nesses e em outros países do mundo.
A seleção da Palestina, que é formada por refugiados e descendentes de refugiados de Gaza e da Cisjordânia, chegaria à Copa com potencial para se tornar a maior torcida em defesa da paz e dos direitos humanos da história do evento.
Quem escolhe o substituto?
A definição de um possível substituto da seleção de futebol do Irã precisa passar, inicialmente, por uma posição definitiva da própria Federação Iraniana de Futebol.
A entidade anunciou, no começo de março, semanas depois de iniciados os ataques de Estados Unidos e Israel contra o seu país, que não disputaria o evento, devido a que seus três jogos já agendados na fase de grupos seriam disputados em solo estadunidense, considerado território hostil.
Mas a postura durou pouco tempo. Ainda em março, os iranianos disseram que aceitariam disputar o evento se suas partidas acontecessem no México.
Dias depois, a Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA), entidade que organiza o torneio, disse que o Irã participará da Copa e que seus jogos acontecerão nos Estados Unidos. A Federação Iraniana nunca confirmou essa versão, embora também não a tenha desmentido.
O presidente da FIFA, Gianni Infantino, chegou a declarar que o Irã pode disputar a Copa sem medo de que algo aconteça aos seus atletas e torcedores, e que a garantia para isso seria o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por ele ter sido eleito para o Prêmio da Paz da FIFA, honraria que foi criada especialmente para ele, no ano passado.
Essa “garantia”, porém, foi desmentida pelo próprio Trump, que advertiu, dias antes da declaração de Infantino, que a seleção iraniana e seus torcedores não deveriam viajar aos Estados Unidos “para sua própria segurança e proteção”.
Critério de substituição
Devido a esse impasse, muitos meios especulam sobre a possibilidade de o Irã precisar ser substituído, e qual seria o critério para fazê-lo.
A questão é que, pelo estatuto da FIFA, a entidade pode indicar um país substituto sem precisar seguir um critério específico, o que levantou especulações, dias atrás, sobre a possibilidade de a Itália ser indicada para ficar com a vaga, após a seleção Azzurra, tetracampeã mundial, ser desclassificada na repescagem pela Bósnia e amargar sua quarta ausência seguida em um Mundial.
Ainda assim, é recomendando – mas não obrigatório – que a mudança dê preferência por uma seleção do mesmo continente da que foi excluída.
Se o critério for o de escolher entre as seleções que disputaram a fase final das Eliminatórias da Ásia, com a óbvia retirada daquelas que já conseguiram a vaga (Arábia Saudita, Austrália, Coreia do Sul, Iraque, Japão, Jordânia e Uzbequistão), a disputa ficaria entre Emirados Árabes, Indonésia e Omã.
Porém, existe uma polêmica no caso de Omã, já que o país conseguiu sua classificação para aquela fase final em uma polêmica partida na qual venceu o selecionado da Palestina com um pênalti claramente inexistente, que sacramentou uma vitória por 1×0 na rodada final da segunda fase.
Assim, seria justo que a escolha do substituto do Irã saísse de um mata-mata entre as três seleções remanescentes da fase final das Eliminatórias da Ásia, mais a Palestina, como reparação pelo erro de arbitragem que gerou aquela desclassificação indevida.
Outro argumento a favor da presença palestina, seja numa repescagem como a acima citada ou numa indicação direta para substituir o Irã, é que se o povo iraniano tivesse o direito de votar para escolher qual seleção deveria substituir a do seu país na Copa, certamente escolheria a da Palestina.
Contra quem a Palestina jogaria
Se fosse concretizada essa hipótese, a Palestina disputaria o Grupo G, e estrearia no dia 15 de junho, em Los Angeles, contra a Nova Zelândia.
No dia 21 de junho, também em Los Angeles, enfrentaria a Bélgica, em partida que certamente seria a preferida de milhares de europeus defensores da causa palestina.
Sua hipotética participação na fase de grupos terminaria em confronto contra o vizinho Egito, que aconteceria no dia 27 de junho, na cidade de Seattle.
Ouso dizer que não poucos egípcios torceriam para uma vitória da Palestina se uma partida como essa realmente acontecesse.
Por enquanto, a agenda da Copa coloca o Irã na disputa desses três duelos, todos eles em solo estadunidense.
FIFA aliada de Israel
Uma possível vitória da Palestina em um jogo de Copa do Mundo seria um fato histórico gigantesco, e talvez essa constatação seja o principal empecilho para que uma proposta de que o país possa disputar o torneio tenha sucesso diante das autoridades do futebol mundial. Afinal, quem tem o poder de tomar as decisões sobre o torneio são aliados políticos dos Estados Unidos e de Israel.
A FIFA está há meses tramitando uma dúzia de pedidos de banimento de Israel das competições entre seleções que ela organiza, incluindo a Copa do Mundo e suas respectivas Eliminatórias – as Eliminatórias referentes à Copa de 2026, por exemplo, tiveram a presença do selecionado israelense.
Esses pedidos defendem que se aplique a Israel o mesmo critério imposto à Rússia logo nos primeiros meses após o início da guerra contra a Ucrânia.
Entretanto, mesmo após dois anos de genocídio em Gaza, a FIFA não só tem evitado se posicionar sobre o banimento de Tel Aviv como seu presidente já afirmou que, em vez de castigar Israel, pretende desfazer essa contradição derrubando o banimento da Rússia.
O post Palestina merece, mais que Itália, herdar vaga do Irã na Copa apareceu primeiro em Opera Mundi.
