Há 48 anos, em 27 de abril de 1978, os militantes do Partido Democrático Popular do Afeganistão articulavam uma revolta contra o governo de Mohammed Daoud Khan, dando início à Revolução de Saur (ou Revolução de Abril).

O triunfo dos insurgentes resultou na proclamação da República Democrática do Afeganistão, um governo de inspiração socialista alinhado à União Soviética. Os revolucionários instituíram uma série de reformas abrangentes, redistribuindo terras, secularizando o Estado, abolindo práticas discriminatórias e expandindo os serviços públicos.

As reformas foram bem aceitas pela população urbana, mas encontraram forte resistência entre líderes religiosos e latifundiários. Apoiados pelos Estados Unidos, esses setores se rebelaram contra o governo socialista, mergulhando o país em um violento conflito que se estendeu ao longo dos anos 80 e teve consequências drásticas.

A reforma política e o surgimento do PDPA

Governado pela Dinastia Barakzai desde 1826, o Afeganistão conseguiu superar a instabilidade e o estado de anomia política em que havia mergulhado desde o colapso do Império Durrani. O novo regime tentou modernizar o Estado afegão a partir de um modelo de governança centralizador e autoritário, que buscava neutralizar o poder político das chefaturas regionais.

A Dinastia Barakzai conseguiu impedir a fragmentação do Afeganistão, a despeito das ofensivas colonialistas dos britânicos e das lutas internas entre os clãs. O descontentamento popular com o regime, no entanto, era cada vez mais evidente.

Na década de 1960, o Afeganistão figurava entre os países mais pobres do mundo, com péssimos indicadores sociais e uma estrutura econômica de base feudal. A concentração fundiária era extrema, com uma pequena elite de grandes proprietários controlando quase 80% das terras cultiváveis. Mais de 90% da população era analfabeta, a expectativa de vida não chegava a 40 anos e a mortalidade infantil superava 200 mortes a cada mil nascimentos.

Uma nova tentativa de modernização e reforma política seria levada a cabo durante o reinado de Mohammed Zahir Xá, o último monarca afegão. A constituição promulgada por Zahir Xá em 1964 instituiu a legislatura bicameral e o pluripartidarismo, dando origem a vários novos partidos, abrangendo da esquerda radical à extrema direita.

Em 1965, foi fundado o Partido Democrático Popular do Afeganistão (PDPA). Professando o ideário socialista, o PDPA se converteu na mais influente organização política de esquerda do país, possuindo fortes vínculos com a União Soviética. O partido se dividia em duas tendências majoritárias: Khalq (“Massas”) e Parcham (“Bandeira”).

Liderado por Nur Mohammad Taraki e Hafizullah Amin, o Khalq congregava os radicais, defendia a revolução armada e apoiava-se em uma base composta por camponeses. Por sua vez, o Parcham, dirigido por Babrak Karmal, representava majoritariamente a classe média urbana e os intelectuais afegãos e propunha uma estratégia reformista, por considerar que o Afeganistão não era suficientemente industrializado para sustentar uma legítima revolução proletária.

A queda da monarquia e a revolução

Apesar das divisões internas, o PDPA se consolidou como uma força política relevante e passou a exercer forte oposição à monarquia afegã. Em 1973, eclodiu no país uma grave crise política, derivada de acusações de corrupção e prevaricação envolvendo membros da família real, insuflada pela grande insatisfação popular com a carestia e os problemas econômicos.

O PDPA aliou-se ao primeiro-ministro, Mohammed Daoud Khan, auxiliando-o a depor o rei Zahir Xá. Com apoio dos socialistas e outros setores, Daoud Khan conseguiu abolir a monarquia e assumiu a chefia de um governo republicano, promulgando uma nova constituição e dando início a uma série de reformas.

A colaboração com o PDPA, entretanto, durou pouco tempo. O novo líder afegão logo passou a articular o isolamento político dos socialistas, preteridos em favor do Partido Nacional Revolucionário. Khan também buscou aproximar-se do Irã e das nações árabes, ao mesmo tempo em que cortava os laços entre o Afeganistão e a União Soviética.

A tensão entre Khan e os socialistas atingiu o ápice em 17 de abril de 1978, quando um correligionário do PDPA chamado Mir Akbar Khyber foi assassinado.

Taraki, líder do Khalq, atribuiu a responsabilidade pela morte de Khyber ao governo afegão e acusou Khan de ter a intenção de eliminar os socialistas. A morte de Khyber causou grande comoção e a união das forças oposicionistas, além de repercutir intensamente entre os setores militares progressistas, majoritariamente ligados ao PDPA.

Quando o cortejo fúnebre de Khyber se converteu em um grande protesto contra Khan, o governo afegão reagiu com brutalidade, dispersando a manifestação e ordenando a prisão dos líderes do PDPA.

Posto em prisão domiciliar, Hafizullah Amin articulou com os oficiais do exército ligados ao Khalq uma sublevação contra o governo afegão. Em 27 de abril de 1978, teve início a Revolução de Saur, assim batizada em referência ao segundo mês do calendário persa.

Diversas unidades militares se rebelaram em todo o país. No dia seguinte, oficiais do Exército Afegão, apoiados pela Força Aérea, subjugaram a Guarda Presidencial e invadiram o Palácio do Governo em Cabul. O presidente deposto, Mohammed Daoud Khan, foi morto durante a operação.

As reformas

Com o triunfo da revolução, as lideranças do PDPA assumiram o governo e buscaram a distribuição equilibrada de cargos do primeiro escalão entre os membros do Khalq e do Parcham. Taraki assumiu a função de primeiro-ministro, tendo Amin como vice, e Karmal tornou-se ministro das relações exteriores.

O novo governo foi oficialmente instituído em 1º de maio de 1978, no Dia do Trabalhador, seguindo-se a proclamação da República Democrática do Afeganistão. O regime revolucionário deu início a uma série de reformas estruturais, visando instituir um Estado laico de inspiração socialista.

A nova legislação reconheceu a igualdade formal e jurídica entre homens e mulheres. O Decreto nº 7 aboliu o “preço de noiva”, a poligamia e o casamento infantil. As mulheres conquistaram a licença-maternidade remunerada e foram incentivadas a estudar e a exercer atividades antes limitadas aos homens. Foram formuladas políticas públicas visando incorporar a participação feminina no governo e na vida política do país.

Costumes religiosos e tradicionais foram substituídos por uma legislação secular e a subvenção pública para mesquitas e organizações islâmicas foi abolida. A industrialização foi fortemente impulsionada e mais de uma centena de fábricas foram construídas no país. A participação das indústrias na receita nacional do Afeganistão saltou de 3,3% em 1978 para 10% em 1983.

A economia foi planificada e setores estratégicos foram nacionalizados. Bens de setores da burguesia ligados ao antigo regime foram expropriados. O governo afegão também conduziu um ambicioso programa de reforma agrária, proibiu a usura e cancelou as dívidas de pequenos proprietários de terras. A distribuição de água passou a ser gerida pelo Estado a partir de critérios igualitários e os intermediários foram suprimidos na cadeia de comercialização dos produtos agrícolas.

A expansão dos serviços públicos foi outra importante conquista da Revolução de Saur. Uma ambiciosa campanha nacional de alfabetização foi estabelecida ainda em 1978. Seis anos depois, mais de 1,5 milhão de adultos já tinham aprendido a ler e a escrever. Mais de 600 escolas e instituições de ensino superior foram construídas. Na área da saúde, o governo revolucionário ampliou em 84% o número de leitos hospitalares e em 45% a quantidade de médicos no setor público.

A União Soviética deu grande apoio financeiro aos projetos de modernização do país, disponibilizando recursos e profissionais para auxiliar na construção de estradas, hospitais e sistemas de irrigação.

A reação da elite e as divisões internas

As reformas instauradas após a revolução foram bem recebidas pela população urbana, sobretudo em Cabul, mas encontraram forte resistência entre os camponeses e os setores mais conservadores da sociedade, que enxergaram as mudanças como ataques à fé islâmica.

Lideranças religiosas passaram a incitar o discurso anticomunista visando reverter as limitações ao proselitismo impostas pelo novo governo. Os latifundiários se irritaram com as desapropriações ocorridas no âmbito da reforma agrária e com o perdão das dívidas dos pequenos proprietários.

Decidida a reverter as reformas, a elite afegã assumiu a articulação dos esforços contrarrevolucionários, criando milícias de rebeldes anticomunistas para atacar guarnições militares e postos do governo em todo o país. Os combates também irromperam na zona rural e eventualmente atingiram as cidades, deixando o Afeganistão à beira da guerra civil.

Ao mesmo tempo em que a revolução era atacada, a cúpula do governo se fragmentava em disputas internas e era contestada por lideranças do próprio Khalq. Em setembro de 1979, Hafizullah Amin liderou um golpe, que resultou na deposição e execução de Taraki.

À frente do governo afegão, Amin tentou recompor os laços com alguns setores da burguesia, ao mesmo tempo em que imprimiu uma severa política de repressão aos opositores. Ele também buscou restabelecer boas relações diplomáticas com os governos do Paquistão e dos Estados Unidos.

A intervenção soviética e a Operação Ciclone

Alarmado com as medidas tomadas por Amin (a quem via com grande desconfiança), preocupado com a perda de controle sobre o país e receoso em relação à expansão do fundamentalismo islâmico, o líder soviético Leonid Brejnev resolveu intervir no Afeganistão.

Aproveitando-se do pedido de auxílio para combater as milícias anticomunistas feito pelo próprio Amin e invocando o Tratado de Amizade assinado com o Afeganistão no ano anterior, o governo soviético lançou a Operação Tormenta-333, enviando unidades do exército rumo a Cabul.

Em 27 de dezembro de 1979, os operativos soviéticos tomaram o Palácio Presidencial. Hafizullah Amin foi morto durante a operação e Babrak Karmal, líder do Parcham, assumiu o governo afegão. Em seguida, com o auxílio do exército afegão, as tropas soviéticas passaram a combater as milícias anticomunistas, que já controlavam diversas cidades do país.

Os Estados Unidos viram a crise política do Afeganistão e a intervenção soviética como oportunidades únicas para debelar a Revolução de Saur e desestabilizar o bloco socialista. Ainda sob o governo de Jimmy Carter, o governo norte-americano começou a financiar e treinar insurgentes e a difundir propaganda antissoviética e anticomunista a partir de suas bases militares no Paquistão.

Em julho de 1979, a CIA lançou a Operação Ciclone, visando cooptar, treinar e armar os mujahidins, isto é, guerrilheiros vinculados a organizações islâmicas fundamentalistas. Mais de 100 mil combatentes estrangeiros foram recrutados pela CIA e pelos serviços secretos da Arábia Saudita e do Paquistão — incluindo Osama bin Laden, líder dos combatentes sauditas — e enviados para combater as tropas soviéticas no Afeganistão, dando início à Guerra Soviético-Afegã.

O conflito se estendeu por uma década. Durante os primeiros três anos, os soviéticos tiveram de lidar com a deserção da maioria dos efetivos do exército local. Aproximadamente dois terços dos soldados afegãos romperam com o governo de Karmal e se aliaram aos mujahidins.

Com isso, os soviéticos perderam o controle de vastas porções do território afegão, mantendo sob seu domínio apenas as principais cidades do país, e se viram forçados a reduzir as ações a operações pontuais.

Em 1986, Karmal foi substituído por Mohammed Najibullah como primeiro-ministro afegão. O novo líder buscou negociar um armistício com os mujahidins, enquanto as tropas soviéticas concentravam suas ações em ataques aéreos contra as bases inimigas.

O governo dos Estados Unidos forneceu mísseis solo-ar FIM-92 Stinger aos rebeldes, prolongando a capacidade dos mujahidins de resistir às ofensivas de Moscou. Em 1988, já em meio às reformas políticas que levariam à dissolução da União Soviética, Mikhail Gorbachev começou a retirar suas tropas do Afeganistão. A guerra foi oficialmente encerrada em fevereiro de 1989.

A guerra civil e o Talibã

Com a saída da União Soviética, iniciou-se uma guerra civil entre as diferentes facções mujahidins e o governo afegão. Apoiado pelos repasses financeiros dos aliados e por equipamentos militares legados pelo exército soviético, o governo afegão ainda conseguiu resistir por três anos, até a queda de Cabul em abril de 1992.

Após a dissolução da União Soviética e a queda do governo socialista afegão, os Estados Unidos deixaram de priorizar as ações militares no país, cortando parte substancial dos repasses.

Visando consolidar seus interesses estratégicos, o governo paquistanês passou a apoiar a milícia do Talibã — um movimento islâmico fundamentalista fundado por Mohammed Omar e Abdul Salam Zaeef, que tinha por objetivo unificar a governança afegã sob o regime da sharia (direito islâmico).

Aproveitando-se da situação de anomia política, o Talibã iniciou a expansão de seu domínio sobre o Afeganistão, sendo financiado por governos estrangeiros e pelos recursos provenientes das plantações de ópio do país.

Em 1994, membros da milícia conquistaram Kandahar, segunda maior cidade do Afeganistão. No ano seguinte, tomaram Herat. E em 1996 conquistaram a capital, Cabul, depondo o presidente Burhanuddin Rabbani e assumindo o controle do país.

O ex-presidente socialista Mohammad Najibullah foi espancado, torturado, castrado e arrastado pelas ruas do país amarrado a um jipe, até ser morto a tiros. Seu cadáver foi então pendurado em um poste e exposto à execração pública.

O Talibã impôs um governo ultrarreacionário, com uma interpretação própria sobre a lei islâmica, restringiu os direitos das mulheres, reverteu as reformas do período socialista, sucateou severamente os serviços públicos e conduziu uma série de massacres e abusos dos direitos humanos contra os opositores do regime.

O post Revolução de Saur: apogeu e derrocada da experiência socialista no Afeganistão apareceu primeiro em Opera Mundi.

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