Os anos eleitorais de 2022 e de 2026 do Brasil estão inseridos em dois contextos internacionais bastante distintos. Em 2022, o plano de fundo externo era marcado por uma relativa recomposição da ordem internacional pós-pandemia de Covid, pela vitória dos democratas ante o golpismo de Trump nos EUA e a tendência de recuperação das forças progressistas em governos sul-americanos com as vitórias na Argentina (Alberto Fernández, 2019), Bolívia (Luís Arce, 2020), Chile (Gabriel Boric, 2021), Colômbia (Gustavo Petro, 2022), México (Manuel López Obrador, 2018) e Peru (Pedro Castillo, 2021).
Em 2026 o mundo se apresenta em outra roupagem, muito mais fragmentado, tenso, beligerante e instável, com Trump de volta ao comando da Casa Branca, uma América do Sul governada majoritariamente por aliados do trumpismo com as vitórias na Argentina (Javier Milei, 2023), Bolívia (Rodrigo Paz, 2025), Chile (José Antônio Kast, 2025), Paraguai (Santiago Peña, 2023), Peru (golpe em 2022). A situação é tão dramática que as eleições vão ocorrer no mesmo ano em que o presidente venezuelano Nicolás Maduro foi sequestrado pelo Pentágono a mando da Casa Branca. Em suma, um ambiente político externo expressivamente mais adverso do que o de 2022.
O cenário internacional de 2026 é mais hostil não apenas por estar “mais tenso”, mas porque há uma mudança qualitativa na forma como o poder mundial é exercido e operado nesta terceira década do século 21. No começo de 2022, ainda predominavam mecanismos de disputa minimamente mediados por instituições e regras, embora este mesmo ano tenha sido o da invasão da Ucrânia pela Rússia como reação ao irrefreável expansionismo da OTAN. Não é menor lembrar que a disposição do Brasil para a mediação desta guerra, por exemplo, foi uma das primeiras propostas apresentadas por Lula ao vencer as eleições. Multilateralismo pulsante na veia. Naquele ano, também a disputa entre Estados Unidos e China já se colocava de modo mais explícito no centro da disputa geopolítica contemporânea, mas ainda com espaço para iniciativas multilaterais e para a reconstrução de pontes diplomáticas. Hoje a disputa entre Estados Unidos e China entrou em uma fase mais aguda, com guerra comercial aberta, disputa tecnológica e por recursos estratégicos para as novas tecnologias, como as terras raras e o lítio, ambos fartos na América Latina.
A eleição de 2022 ocorreu sob o signo do isolamento internacional do Brasil, construído e acumulado por Bolsonaro nos anos anteriores. A política externa governamental havia se afastado de parceiros estratégicos e de fóruns multilaterais, o que transformou aquela eleição em uma oportunidade de “recolocar o Brasil no mundo”. “O Brasil voltou” foi o principal bordão pós-eleições de outubro daquele ano. Ao vencer e ainda antes de ser empossado – vide o discurso na COP 27 no Egito –, Lula mobilizou fortemente a ideia de reconstrução das boas relações internacionais brasileiras, da retomada do protagonismo diplomático e revalorização de espaços de articulação no Sul Global, como o BRICS e a integração latino-americana. Chamou para si a COP-30. Havia, portanto, um ambiente externo que, embora tensionado, ainda permitia uma estratégia de reinserção baseada no diálogo e na cooperação.
De lá pra cá, o multilateralismo degradou-se muito. Ao ponto de um genocídio ser televisionado ante os inertes olhos do mundo e da tão propalada “comunidade internacional”. Em 2026, reina o uso direto da coerção, da pressão militar e do confronto direto por parte da potência hegemônica decadente dos EUA. O cenário internacional se caracteriza por uma intensificação dos conflitos e por uma maior ofensiva regional estadunidense organizada em uma Nova Estratégia de Segurança Nacional (2025). E uma política hemisférica mais dura por parte dos Estados Unidos, com maior pressão sobre a América Latina e o Caribe, seja por meio de acordos militares, seja por instrumentos econômicos e diplomáticos, no redesenho da bicentenária Doutrina Monroe para sua versão Donroe. A região volta a ser tratada, de modo mais declarado e explícito, como espaço de contenção geopolítica e zona direta de influência dos EUA, o que impacta diretamente países como o Brasil.
Diferentemente de 2022, quando as eleições ocorreram com um ambiente interno mais perigoso e conturbado, mas um cenário regional externo mais favorável e que não deu espaço para o golpismo bolsonarista, em 2026 aquele mesmo golpismo pode encontrar a guarida nos vizinhos que não encontrou há quatro anos. Os 40 minutos que Biden levou para reconhecer a vitória de Lula no segundo turno podem se transformar em 40 dias no caso de Trump. E com a instrumentalização da OEA sempre à disposição do Departamento de Estado. O famigerado Grupo de Lima que outrora operou para desestabilizar a Venezuela pode se reorganizar para constranger o Brasil agora em nova roupagem de “Escudo das Américas”. A alegação de que um suposto narcoterrorismo opera a favor do campo da esquerda brasileira para colocar em risco a segurança nacional dos EUA pode nunca ser usada, mas ninguém é cego o suficiente para não ver que ela está sendo alimentada.
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