Ato em defesa das mulheres na Praia de Camburi revelou uma contradição que hoje provoca desconforto crescente na advocacia capixaba

O que deveria ser apenas um ato público em defesa das mulheres acabou se transformando em um símbolo da crise de coerência institucional que hoje atravessa a Ordem dos Advogados do Brasil no Espírito Santo (OAB-ES).

No dia de ontem, durante um evento realizado na Praia de Camburi, em Vitória, participantes se reuniram em defesa de pautas sociais e contra a violência de gênero.

Entre os presentes estava o advogado Lucas Francisco Neto, que ocupa um dos cargos mais simbólicos dentro da estrutura da Ordem: Diretor Estadual de Direitos Humanos da OAB-ES.

O contraste entre o discurso público e a situação jurídica do dirigente rapidamente passou a circular entre advogados e integrantes da própria Ordem.

Para muitos, a cena — um diretor de Direitos Humanos participando de um ato em defesa das mulheres enquanto acusado por violência psicológica contra ex-companheira — acabou se tornando um símbolo perturbador da contradição institucional.

Em entrevista, Aline Barbosa Vieira descreveu um relacionamento que, segundo ela, foi marcado por desqualificação emocional, humilhações e profundo sofrimento psicológico.

Ela afirma que vivia sob constantes críticas.

“Eu me sentia muito sozinha, inferiorizada e negligenciada.”

Segundo ela, frases ofensivas eram recorrentes durante o relacionamento.

“Ninguém gosta de você.”
“As pessoas só te aceitam por minha causa.”
“Eu tenho vergonha de você.”

Aline afirma que, com o tempo, passou a acreditar nessas falas.

“Depois de um tempo eu comecei a acreditar nisso e fui me afastando de todos.”

Um dos momentos mais dolorosos relatados por ela envolve a perda de uma gestação.

Segundo Aline, ela sofreu um aborto com cerca de 11 semanas de gravidez, diagnosticado durante um exame de rotina.

“Perdi um bebê com 11 semanas de gestação.”

Ela relata que precisou conviver com o feto sem vida por semanas até que o próprio corpo o expulsasse.

“Precisei ficar com o neném morto por quase 30 dias até que meu corpo expulsasse sozinho.”

Segundo ela, o episódio ocorreu em meio a profundo sofrimento emocional.

“Meu corpo inteiro sofreu com isso e ainda precisei passar por esse momento praticamente em silêncio.”

Aline também afirma ter enfrentado sofrimento psicológico no período após o nascimento da filha do casal.

“No puerpério eu comecei a ficar apática, cuidando de tudo sozinha.”

Segundo ela, a situação evoluiu para pensamentos autodestrutivos.

“Logo depois comecei a ter ideação suicida.”

Ao comentar a atuação pública do ex-companheiro na área de direitos humanos, ela afirma ver contradição entre a imagem institucional e o comportamento que diz ter vivido.

“Eu não conheço essa pessoa defensora de direitos.”

Para Aline, a permanência dele em cargo institucional ligado à defesa de direitos humanos representa uma incoerência.

“É um contrassenso uma pessoa que age dessa forma ocupar um espaço de defesa dos direitos dos outros.”

A frase passou a circular nos bastidores da advocacia como um retrato do desconforto gerado pelo episódio.

O peso simbólico do cargo

Dentro da estrutura da OAB, a Diretoria de Direitos Humanos não é apenas um cargo administrativo.

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Trata-se de uma função que representa institucionalmente a entidade em temas sensíveis como:

  • proteção de grupos vulneráveis
  • combate à violência
  • defesa de direitos fundamentais
  • promoção de políticas de igualdade e dignidade humana.

Por isso, quando o ocupante de um cargo dessa natureza passa a responder a investigação baseada na Lei Maria da Penha, o impacto não se limita à esfera pessoal.

Ele atinge diretamente a credibilidade simbólica da própria instituição.

A própria denunciante questiona essa contradição.

“É um contrassenso uma pessoa que age dessa forma ocupar um espaço de defesa dos direitos dos outros”, afirmou Aline Barbosa Vieira.

Silêncio institucional

Outro aspecto que tem sido comentado nos bastidores da advocacia capixaba é o silêncio institucional da atual gestão da OAB-ES diante da situação.

A entidade é atualmente presidida pela advogada Erica Neves, que assumiu o comando da Ordem com forte discurso de valorização da advocacia e defesa de direitos.

Apesar disso, advogados têm questionado internamente o fato de que não houve até o momento qualquer medida institucional visível ou posicionamento público da presidência em relação ao caso envolvendo um diretor estadual da própria entidade.

Para parte da advocacia, a ausência de reação institucional acaba ampliando o desconforto gerado pelo episódio.

O problema não é isolado

O caso também reacendeu discussões sobre outros episódios envolvendo integrantes da estrutura da Ordem.

Outro dirigente da OAB-ES, Ruberlan Rodrigues Sabino, ligado à área de prerrogativas da advocacia, também respondeu a procedimento relacionado à Lei Maria da Penha, envolvendo acusação de lesão corporal em contexto de violência doméstica.

Quando casos dessa natureza passam a atingir integrantes da própria estrutura de liderança da entidade, muitos advogados passaram a defender que o debate deixe de ser tratado apenas como questão individual.

Para eles, o problema começa a assumir contornos institucionais.

Este episódio que tem provocado indignação dentro da advocacia capixaba envolve o advogado Ruberlan Rodrigues Sabino, que atualmente ocupa o cargo de Diretor de Prerrogativas da OAB-ES, função responsável justamente por defender advogados contra abusos e violações de direitos no exercício da profissão.

Ele foi relacionado a um episódio de agressão física contra mulher, tendo como vítima Mariana Muniz Rodrigues.

A vítima apresentou lesões aparentes na face, fato que também aparece evidenciado nas imagens que circulam juntamente com o caso. Na fotografia anexada ao procedimento é possível observar marcas e hematomas visíveis no rosto da vítima, compatíveis com relato de agressão física.

O episódio se tornou ainda mais controverso dentro da advocacia porque, apesar da gravidade das acusações, Ruberlan Rodrigues Sabino continua ocupando normalmente o cargo de Diretor de Prerrogativas da OAB-ES.

Para muitos advogados, a situação revela uma contradição difícil de explicar: um dirigente responsável por defender prerrogativas e direitos da advocacia permanecendo em função institucional que tenha tido investigação por violência doméstica.

Nos bastidores da própria Ordem, cresce o questionamento sobre até que ponto é possível sustentar o discurso institucional de defesa de direitos fundamentais quando integrantes da própria direção aparecem envolvidos em casos dessa natureza.

A crise que começa a emergir

A Ordem dos Advogados do Brasil construiu ao longo de sua história uma posição de autoridade moral no debate público sobre democracia, direitos humanos e garantias fundamentais.

Por isso, para muitos advogados, a cena registrada em Camburi — um ato em defesa das mulheres com a presença de dirigentes da própria entidade envolvidos em investigações relacionadas à violência doméstica — acabou se transformando em um espelho incômodo da crise de coerência institucional que hoje começa a emergir dentro da OAB-ES.

E para parte da advocacia capixaba, a pergunta que ficou após o episódio é inevitável:

quem deve representar a defesa dos direitos humanos dentro da própria advocacia?