O governo pró-europeu da Romênia foi destituído nesta terça-feira (05/05) pelo parlamento, em virtude da aprovação de uma moção de censura apresentada pelo Partido Social Democrata (PSD) e pelo partido de extrema-direita Aliança para a União dos Romenos (AUR). A decisão marca um momento de forte tensão política, já que ocorre a menos de um ano da posse da coalizão governante.

O primeiro-ministro liberal da Romênia, Ilie Bolojan, disse aos parlamentares antes da votação que “a moção de censura é falsa, cínica e artificial” e que “qualquer país em meio a múltiplas crises tentaria consolidar governos, não trocá-los”.

Ilie Bolojan teve uma trajetória recente marcada por dois momentos consecutivos no poder na Romênia. Entre 12 de fevereiro de 2025 e 26 de maio de 2025, atuou como presidente interino, assumindo o cargo em meio a uma crise institucional após a renúncia de Klaus Iohannis.

Poucas semanas depois, em 23 de junho de 2025, foi empossado como primeiro-ministro após negociações políticas que levaram à formação de uma nova coalizão governista.

A moção foi aprovada com 281 votos a favor e apenas quatro contra, ultrapassando amplamente o mínimo necessário de 233 votos. Apesar de o PSD e a AUR somarem juntos 220 deputados, a votação contou com apoios adicionais, enquanto partidos da coligação governamental optaram pela abstenção.

O líder da AUR, George Simion, aproveitou a situação para pedir eleições antecipadas, afirmando que a “voz do povo” foi ouvida e que seu partido deve assumir a responsabilidade pelo “futuro do país”, defendendo que o destino da Romênia “deve ser decidido pelos votos dos romenos”.

No entanto, eleições antecipadas são consideradas improváveis, já que o calendário oficial está previsto para 2028. Ainda assim, acende um sinal de alerta o crescimento da AUR nas pesquisas, com cerca de 37% das intenções de voto, o que pode influenciar o futuro político do país.

Segundo o jornal The Guardian, o presidente centrista Nicușor Dan deve indicar um novo primeiro-ministro. Antes disso, ele deve convocar partidos para negociações com o objetivo de tentar reconstruir a antiga coalizão, seja com outro líder do Partido Nacional Liberal (PNL)  ou com um tecnocrata.

Em declaração nesta terça-feira, Dan afirmou que a situação atual não é “feliz”, mas descartou a proposta da extrema-direita de convocação de eleições antecipadas, defendendo a formação de um novo governo em um “prazo razoável”.

O líder do PSD, Sorin Grindeanu, afirmou aos jornalistas que o partido aceitaria integrar uma coligação pró-União Europeia sob um novo premiê, dizendo que “há vida após o voto de desconfiança”. Ele acrescentou: “Queremos manter, em linhas gerais, esta coligação”.

No entanto, o vice-primeiro-ministro do PNL, Cătălin Predoiu, mostrou-se dividido e afirmou que é preciso “manter as opções em aberto”.

A União para Salvar a Romênia (USR) afirmou que não pretende retomar uma aliança com o PSD e indicou não temer a convocação de eleições antecipadas, mantendo-se aberta inclusive a um governo minoritário.

A declaração ocorre após o agravamento da crise política: o PSD deixou a coalizão, pediu a renúncia do primeiro-ministro e, em seguida, aliou-se à oposição e à AUR para aprovar a moção de censura que levou à queda do governo.

Início do conflito

O PSD entrou em conflito diversas vezes com o premiê Ilie Bolojan devido à adoção de medidas econômicas duras, como aumento de impostos, congelamento de salários e aposentadorias públicas e cortes de gastos e empregos, medidas que impactaram diretamente seus eleitores e levaram à perda de apoio popular.

Em junho do ano passado, logo em sua posse, o governo iniciou um plano para reduzir o déficit orçamentário da Romênia, um dos mais elevados da União Europeia. A medida teve sucesso inicial, reduzindo o índice de 9,3% para 7,9% do PIB, mas acabou gerando forte desgaste político.

Além disso, o país ainda precisa reduzir seu déficit, com meta de 6,2% neste ano, como parte das reformas necessárias para receber cerca de 10 bilhões de euros da União Europeia dentro do prazo estabelecido.

Nesta terça-feira, Ilie Bolojan afirmou que a decisão de derrubar o governo ignorou a atual situação financeira do país, ressaltando que já esperava que as medidas adotadas seriam impopulares.

Ainda no ano passado, partidos pró-União Europeia se juntaram e formaram governo após eleições parlamentares nas quais a AUR conquistou um terço dos assentos, encerrando um período de turbulências políticas iniciado com a anulação das eleições de 2024.

Diante deste cenário, o candidato da extrema-direita George Simion venceu o primeiro turno da eleição presidencial, resultado que contribuiu para enfraquecer o então governo de coalizão entre PSD e PNL. No entanto, ele acabou derrotado de forma expressiva no segundo turno por Nicușor Dan, em maio.

O post Parlamento derruba governo pró-Ocidente e aprofunda crise política na Romênia apareceu primeiro em Opera Mundi.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *