Por José Carlos Rizk Filho
Na tradição bíblica, o Messias é anunciado muito antes de aparecer. Seu nome surge nas profecias, nos debates teológicos, nas esperanças de um povo que aguarda um ungido capaz de inaugurar um novo tempo. A espera, mais do que a chegada, molda a narrativa. A demora, mais do que a revelação, compõe a fé. O Messias é sempre iminente — e, por isso mesmo, sempre uma promessa.
No Brasil de 2025, a cena em Brasília parece repetir, com ironia involuntária, essa lógica ancestral. Desde que Luís Roberto Barroso deixou o Supremo Tribunal Federal, abriu-se no Tribunal a mais simbólica das lacunas. Uma cadeira vazia no STF é algo maior do que uma simples substituição: é um gesto político, jurídico e civilizatório. É a chance de um governo deixar sua marca em pedra branca — ou de perder a oportunidade.
E assim como nas Escrituras, a capital federal passa a viver de sinais. Cada movimento do presidente Lula é lido como prenúncio. Cada silêncio é interpretado como capítulo. Cada lista de nomes funciona como uma nova tradução dos antigos textos sagrados. É nesse ambiente que o nome do ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, ganhou contornos quase proféticos. É apontado como favorito, como provável escolhido, como presença confirmada… mas nunca anunciada. Brasília conhece bem esse tipo de espera.
A pergunta, inevitável, repete-se como mantra: será o Messias?
Mas talvez a pergunta mais honesta — e mais incômoda — seja outra. Uma pergunta que não vem dos profetas, mas das estatísticas, da história institucional do país e da própria consciência do governo: como é possível que, em pleno 2025, o Supremo Tribunal Federal conte com apenas uma mulher?
A realidade é constrangedora: o Brasil possui um Judiciário majoritariamente feminino na base e majoritariamente masculino no topo. Mulheres são maioria entre servidores, maioria entre estudantes de Direito, maioria entre aprovadas em concursos. E, no entanto, quando se chega ao mais alto degrau da magistratura, elas praticamente desaparecem. O STF, ao longo de 134 anos, teve apenas três ministras. Hoje, apenas uma ocupa a Corte: Cármen Lúcia — que carrega, sozinha, o peso simbólico de representar metade da população brasileira. Não há paridade, não há equilíbrio, não há sequer diversidade mínima.
Diante desse quadro, a demora de Lula não é apenas política; é também uma escolha de impacto social. E a indagação que se coloca é direta: sob que argumento se justificaria indicar, pela terceira vez no mandato, mais um homem?
Sobretudo quando não faltam mulheres altamente qualificadas, capazes, experientes e reconhecidas nacionalmente.

Patrícia Vanzolini, por exemplo, reúne um dos currículos mais fortes entre juristas de sua geração. Doutora em Direito Penal pela PUC-SP, professora há décadas, advogada de atuação intensa e reconhecida, foi a primeira mulher em 90 anos a presidir a OAB de São Paulo, a maior seccional do país, onde modernizou estruturas, ampliou políticas de igualdade de gênero e ganhou respaldo de advogados de todos os espectros ideológicos. É autora de obras jurídicas de referência, palestrante internacional e voz firme em defesa das prerrogativas e das garantias constitucionais. Seu nome traria ao STF experiência prática rara e uma leitura sensível, moderna e plural do Direito.

Daniela Teixeira, hoje ministra do Superior Tribunal de Justiça, integra outro polo de excelência. Formada pela UnB, foi uma das advogadas mais influentes de Brasília antes de ingressar no STJ, onde construiu jurisprudência sólida em temas de direito constitucional e processual. Por anos, atuou como representante das mulheres na OAB Nacional, liderando debates sobre violência institucional e equidade no Judiciário. No STJ, consolidou-se como magistrada técnica, respeitada e independente, com sensibilidade para temas sociais e profundo domínio da hermenêutica constitucional. Sua ascensão ao STF seria não apenas coerente com sua trajetória, mas também um gesto simbólico de renovação e pluralidade.
Por isso, a discussão sobre “o Messias” adquire contornos ainda mais complexos. A cada dia que passa, a cadeira vazia deixa de ser apenas um espaço de poder e passa a ser um espelho do país. Se Lula optar por Jorge Messias, será uma escolha política coerente com suas articulações internas, mas inevitavelmente tensionada pelo debate público sobre representatividade de gênero. Se optar por uma mulher, quebrará um ciclo histórico e reposicionará o STF diante do mundo contemporâneo, em sintonia com movimentos globais de paridade judicial e com o próprio discurso progressista que marcou sua trajetória.
Enquanto a decisão não vem, Brasília segue fazendo aquilo que sempre fez: especulando, analisando sinais, lendo o silêncio. Como nas antigas narrativas, a expectativa se torna parte da história. Mas, ao contrário da Bíblia, o desfecho aqui não depende de profecia, e sim de coragem política.
E assim, diante de uma cadeira vazia que vale mais do que qualquer metáfora religiosa, resta ao país a dúvida que combina ironia, história, Constituição e esperança:
Será o Messias? Ou será a Messias?
