Há 161 anos, em 28 de abril de 1865, nascia o médico, cientista e sanitarista Vital Brazil, um dos pioneiros mundiais da imunologia e da toxinologia.

Ativo no combate às epidemias e problemas sanitários que assolavam o Brasil desde o fim do século 19, Vital Brazil foi responsável pela descoberta da especificidade antigênica, um conceito que revolucionou a imunologia, possibilitando a criação de terapias antipeçonhentas eficazes e salvando milhões de vidas.

O cientista brasileiro desenvolveu os primeiros soros antiofídicos polivalentes e também foi pioneiro na criação de soros contra picadas de escorpiões e aranhas.

Vital Brazil também se destacou como fundador do Instituto Butantan, maior produtor de soros e vacinas da América Latina. Ele doou gratuitamente sua patente do soros antiofídico para o governo brasileiro e deixou o Instituto Vital Brazil como legado para o governo fluminense.

Juventude e formação

Nascido na cidade de Campanha, no sul de Minas Gerais, Vital Brazil era o primogênito dos oito filhos de Manuel dos Santos Pereira Junior e de Maria Carolina Pereira de Magalhães.

Seu nome completo, Vital Brasil Mineiro da Campanha, reflete o gosto peculiar do pai pela toponímia. Chamou-se “Vital” porque nasceu no dia de São Vital. “Brazil” em homenagem ao seu país, “Mineiro” pelo estado de origem e “da Campanha” em referência à sua cidade natal.

O pai de Vital Brazil era descendente de fazendeiros e tabelião na cidade de Itajubá. Ele perdeu a maior parte de seu patrimônio em dívidas de jogo e passou a perambular pelo país como caixeiro viajante. A mãe, oriunda da família Pereira de Magalhães, era descendente de Tiradentes.

Vital Brazil passou sua infância entre as cidades de Campanha, Itajubá e Caldas. Fez seus estudos iniciais sob a tutela de um mestre presbiteriano e começou a trabalhar aos nove anos de idade para ajudar no sustento da casa. Ainda adolescente, tornou-se professor de um curso primário, lecionando gratuitamente em troca de uma bolsa de estudos em um colégio renomado de Minas Gerais.

Em 1886, aos 21 anos, Vital Brazil foi aprovado nos exames preparatórios da Escola de Medicina do Rio de Janeiro. Para se manter na antiga capital, ele trabalhou como professor e como escrivão da polícia. Graduou-se com honras em 1891, apresentando uma tese sobre as funções do baço.

Vital Brazil se casou logo após a formatura, desposando sua prima de segundo grau, Maria da Conceição Filipina de Magalhães. O casal teve 12 filhos, dos quais 9 chegaram à idade adulta. Em 1920, já viúvo de Maria da Conceição, o cientista se casou pela segunda vez com Dinah Carneiro Vianna, com quem teve mais nove filhos.

O combate às epidemias

Já graduado, Vital Brazil se mudou para São Paulo, onde começou a trabalhar no Serviço Sanitário do Estado. Ele atuou na linha de frente como médico sanitarista, participando das brigadas de combate às epidemias de peste bubônica, tifo, varíola e febre amarela. Em 1895, Vital Brazil liderou a Comissão Sanitária que combateu uma grave epidemia de cólera no Vale do Paraíba.

Durante seu trabalho nas brigadas, Vital Brazil contraiu febre amarela em duas ocasiões. Preocupados com sua saúde, os familiares o convenceram a deixar o serviço público para clinicar em Botucatu, no interior paulista. Foi nesse período que o médico passou a ter contato com a grave situação sanitária nos cafezais e canaviais da região. Todos os anos, centenas de trabalhadores rurais morriam em decorrência de picadas de animais peçonhentos.

Na época, não existiam tratamentos eficazes para tratar as vítimas dos acidentes — apenas remédios caseiros ou soros inespecíficos importados da Europa, que, na maior parte das vezes, falhavam. Vital Brazil passou então a realizar suas pesquisas com o soro antiofídico.

O cientista também desenvolveu um importante trabalho na área de educação e prevenção, criando campanhas para diminuir os acidentes com serpentes nas áreas rurais. Ele treinou e equipou camponeses com itens para a captura de serpentes e foi responsável por fundar uma das primeiras escolas especializadas na alfabetização de adultos do Brasil.

Em 1897, Vital Brazil ingressou no Instituto Bacteriológico de São Paulo, órgão dirigido por Adolfo Lutz, o pai da medicina tropical. Também voltou a participar das brigadas de combate às epidemias, trabalhando ao lado de Oswaldo Cruz e Emílio Ribas em diversas campanhas.

Em 1899, Vital Brazil foi responsável por identificar a epidemia de peste bubônica que assolou a cidade de Santos. Ele confirmou o papel dos ratos e pulgas como vetores da doença e teve papel central no controle da epidemia. O médico chegou a ser infectado com a peste, mas foi tratado por Oswaldo Cruz.

Instituto Butantan

Confirmado o surto de peste em Santos, as autoridades brasileiras tentaram encomendar o soro antipestoso na Europa, mas os principais laboratórios do continente estavam destinando a produção para atender à demanda local. A solução, portanto, era produzir o imunizante no Brasil.

Ainda em 1899, o governo paulista desapropriou a Fazenda Butantan, na Zona Oeste de São Paulo. Foi nesse local que Vital Brazil montou um laboratório improvisado e iniciou a produção em massa do soro antipestoso.

Em 1901, o laboratório ganhou autonomia, convertendo-se no Instituto Serumtherápico. Em 1925, a instituição seria rebatizada como Instituto Butantan. O órgão buscou seguir o modelo consolidado pelo Instituto Pasteur, combinando amplos investimentos em pesquisa com a produção permanente de imunobiológicos.

Vital Brazil foi o primeiro diretor do Instituto Butantan, dirigindo o órgão de 1901 até 1919. Ele retornou à direção do instituto em 1924, permanecendo nessa função até 1927. Sob sua liderança, o Butantan se consagraria como uma referência mundial em imunobiologia. Seria também o primeiro centro de pesquisas do mundo dedicado à toxinologia básica e aplicada.

O Butantan se dedicou a produzir soros antiofídicos, penicilina e vacinas contra tifo, varíola, tétano, psitacose, disenteria bacilar e BCG. A instituição se tornou a maior produtora de imunizantes da América Latina, respondendo por 51% das vacinas e 56% dos soros para uso profilático e curativo fabricados no Brasil.

O soro antiofídico específico

Durante o período em que dirigiu o Instituto Butantan, Vital Brazil produziu algumas das maiores contribuições brasileiras ao avanço da ciência mundial.

Em 1901, o cientista comprovou que o soro monovalente utilizado para tratar as picadas de serpentes asiáticas era ineficaz contra o veneno de serpentes sul-americanas. Vital Brazil descobriu assim o princípio da especificidade antigênica — um conceito chave que revolucionou o desenvolvimento da imunologia.

Vital Brazil demonstrou que cada gênero de serpente exigia um soro antiofídico próprio, uma vez que os venenos atuavam de formas distintas. A descoberta possibilitou criar, pela primeira vez na história, terapias antipeçonhentas verdadeiramente eficazes, ajudando a salvar milhões de vidas.

Mapeando as semelhanças bioquímicas entre os venenos de serpentes sul-americanas, Vital Brazil se tornou o primeiro cientista a desenvolver um soro antiofídico polivalente, usado no tratamento contra cobras venenosas dos gêneros Crotalus, Bothrops e Micrurus. Ele também foi o pioneiro na criação de soros contra picadas de escorpiões e aranhas e participou da criação de novas terapias antitetânicas e antidiftéricas.

O desenvolvimento dos soros antiofídicos específicos permitiu reduzir enormemente a quantidade de mortes causadas por essas espécies no continente americano. Em poucos anos, a taxa de letalidade despencou de 25% para menos de 2%.

A façanha de Vital Brazil despertou o interesse dos principais centros científicos da Europa e dos Estados Unidos. Em 1915, após sua participação no Congresso Científico Pan-Americano, Vital Brazil salvou a vida de um funcionário do Zoológico do Bronx que havia sido picado por uma cascavel. O fato foi noticiado pelo jornal New York Times, contribuindo para difundir ainda mais a fama do cientista mineiro.

Em 1917, abrindo mão do potencial lucrativo de sua descoberta, Vital Brazil doou a patente do soro antiofídico para o governo do Brasil. Nesse mesmo ano, foi eleito membro honorário da Academia Nacional de Medicina.

Instituto Vital Brazil

Vital Brazil colaborou com uma série de revistas científicas, incluindo a “Revista Médica de São Paulo” e o “Brasil Médico”. Produziu dezenas de artigos e ensaios e publicou dois livros, intitulados “A Defesa contra o Ofidismo” (1911) e “Memória Histórica do Instituto Butantan” (1941).

Em 1919, após uma série de desentendimentos administrativos, Vital Brazil deixou a direção do Instituto Butantan e se mudou para o Rio de Janeiro. Ele havia sido convidado por Carlos Chagas para trabalhar no Instituto Oswaldo Cruz (atual Fiocruz), mas optou por fundar uma nova organização, por considerar que o Brasil necessitava de mais instituições científicas.

Em junho de 1919, foi inaugurado na cidade de Niterói o Instituto de Higiene, Soroterapia e Veterinária, atual Instituto Vital Brazil (IVB). Criado com apoio do governo fluminense, o IVB surgiu como um centro de pesquisas e produção de soros, vacinas e produtos biológicos, priorizando as demandas da saúde pública e o combate às doenças infecciosas.

As instalações atuais do IVB foram projetadas pelo filho do médico, o arquiteto modernista Álvaro Vital Brazil. O edifício foi inaugurado em 1943, com a presença de Getúlio Vargas.

No pós-Segunda Guerra, Vital Brazil recebeu diversas propostas para vender seu instituto em Niterói para farmacêuticas multinacionais, mas recusou todas. O cientista tinha receio de que o laboratório parasse de fabricar e ofertar medicamentos acessíveis por razões comerciais. Optou, assim, por doar sua instituição ao poder público.

O Instituto Vital Brazil atualmente pertence ao governo do Rio de Janeiro e é um dos principais produtores de soros e vacinas do estado, além de coordenar pesquisas em epidemiologia e programas de controle de doenças.

Vital Brazil faleceu em 8 de maio de 1950, aos 85 anos. Ele foi postumamente homenageado emprestando seu nome a logradouros, bairros, escolas e hospitais. É o patrono da cadeira nº 62 da Academia de Medicina de São Paulo. Desde 2003, seu nome está registrado no Livro de Aço dos Heróis e Heroínas da Pátria.

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