Há 89 anos, em 29 de abril de 1937, a cidade basca de Guernica se rendia às tropas de Francisco Franco.
A rendição ocorreu três dias após o violento bombardeio contra a cidade, um dos episódios mais infames da Guerra Civil Espanhola. O ataque aéreo foi conduzidos por aviões da Alemanha nazista e da Itália fascista e resultou na morte de centenas de pessoas e na destruição de 70% da área urbana de Guernica.
O bombardeio contra Guernica foi o primeiro ataque aéreo de grande porte direcionado exclusivamente contra alvos civis na Europa, tornando-se um marco dos chamados “bombardeios de terror” e um teste para as estratégias de guerra total que seriam empregadas ao longo do século 20.
A Guerra Civil Espanhola
Originada em um contexto de crescente instabilidade política e radicalização da sociedade, a Guerra Civil Espanhola serviu de prelúdio à Segunda Guerra Mundial. O conflito opôs as tropas republicanas (agrupadas em torno da aliança entre anarquistas, socialistas e comunistas) às forças franquistas (compostas pela união de falangistas, monarquistas, católicos e carlistas).
Sem aceitar a vitória da esquerda nas eleições de 1936, os setores reacionários da sociedade espanhola, liderados pelo general Francisco Franco, iniciaram uma insurreição armada para derrubar a Frente Popular. As forças de Franco contaram com forte apoio dos governos nazifascistas.
Para auxiliar os nacionalistas, a Alemanha enviou a Legião Condor e a Itália despachou cinco divisões de camisas-negras. Os republicanos, por sua vez, contaram com moderado apoio soviético e com a ajuda das Brigadas Internacionais, formadas por mais de 60 mil voluntários, na maioria comunistas e anarquistas, oriundos de todas as partes do mundo.
Frustradas em suas primeiras tentativas de conquistar a capital, Madri, as forças nacionalistas repensaram sua estratégia, passando a realizar campanhas visando tomar localidades menos protegidas do território espanhol.
Localizada na província de Biscaia, no País Basco, a cidade de Guernica não possuía alvos militares de relevo, mas sua tomada facilitaria o avanço nacionalista rumo à região de Bilbao, dotada de diversas fábricas de armas.
A relevância de Guernica era, sobretudo, simbólica. A cidade abriga a árvore de Gernika, um carvalho que serve de símbolo histórico para o povo basco e sua luta por autonomia. Os movimentos independentistas das minorias étnicas da Espanha estavam entre os alvos preferenciais dos franquistas.
Guernica também havia sido poupada da devastação da guerra, o que lhe credenciava a servir de laboratório para que Hermann Göring pudesse aferir o potencial destrutivo da Luftwaffe, a Força Aérea da Alemanha nazista.
O bombardeio de Guernica
Oficialmente denominado “Operação Rügen”, o bombardeio de Guernica foi planejado por Wolfram von Richthofen, marechal da Luftwaffe e primo de Manfred von Richthofen, o Barão Vermelho.
Nenhum voo de reconhecimento foi realizado previamente, reforçando o caráter terrorista da campanha e a intenção deliberada de atacar a população civil. O ataque foi planejado para ocorrer em uma data em que a cidade sediava uma feira agrícola, frequentada por moradores dos vilarejos vizinhos, visando potencializar o número de vítimas.
O bombardeio teve início na tarde do dia 26 de abril, quando um Dornier Do 17 lançou uma dúzia de bombas sobre o centro da cidade. Em seguida, três Savoias-79 atacaram Guernica com dezenas de bombas, seguidos por outros três aviões Heinkel-111. A devastação maior ficou a cargo de uma esquadrão de Junkers Ju 52, que lançaram explosivos de até 250 quilos e bombas incendiárias.
O bombardeio se prolongou por três horas e mobilizou 24 aeronaves da Legião Condor e da Aviazione Legionaria. Mais de 40 toneladas de bombas foram jogadas sobre Guernica, devastando 70% de sua área urbana. O ataque destruiu o sistema hídrico, inutilizando os hidrantes e impedindo o combate aos incêndios que se alastraram por toda a cidade.
Os civis que tentavam deixar a cidade eram alvejados por aeronaves equipadas com metralhadoras que bloqueavam as saídas. Os alemães batizaram essa tática de “anel de fogo” e voltaram a utilizá-la em batalhas posteriores.
O ataque de Guernica inaugurou na Europa a estratégia bélica dos chamados “bombardeios de terror”, que buscavam espalhar choque e pânico para intimidar e subjugar os inimigos, forçando-os a rendição. A estratégia seria fartamente empregada durante a Segunda Guerra Mundial, atingindo seu paroxismo durante os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki.
O plano de aterrorizar as lideranças bascas funcionou: Guernica capitulou diante das tropas do general Franco três dias após o bombardeio, em 29 de abril.
O número exato de vítimas do ataque permanece uma incógnita, uma vez que as tropas nacionalistas sequer se incomodaram em registrar o os nomes dos falecidos posteriormente sepultados. As estimativas variam entre 150 e 1650 mortos. A maioria eram mulheres e crianças, uma vez que os homens estavam participando da campanha militar.
Após a derrota dos republicanos, os nacionalistas criaram uma série de mitos revisionistas buscando apagar sua responsabilidade pela devastação de Guernica. Franco chegou a espalhar o boato de que a cidade teria sido bombardeada por comunistas.
Líderes políticos, representantes da esquerda, intelectuais e artistas se esforçaram para desmentir os boatos e denunciar a barbárie do regime franquista.
Pouco tempo após o bombardeio, Pablo Picasso pintou a gigantesca tela “Guernica”, retratando corpos mutilados, o desespero e as atrocidades do nazifascismo.
A obra chamou a atenção durante sua presença na Exposição Internacional de Paris. Na abertura da mostra, um oficial alemão das SS questionou Pablo Picasso sobre a autoria da obra: “Foi você quem fez isso?”. O pintor retrucou. “Não. Foram vocês”.
O post Bombardeio de Guernica: um ensaio para a barbárie nazifascista apareceu primeiro em Opera Mundi.
