No dia do ataque ao Irã, o jornal O Estado de São Paulo publicou mais um editorial que, pelos piores motivos, entrará para a posteridade: Ninguém vai chorar pelo Irã. Ali, junto do apoio incondicional ao Ocidente, também vinha a crença de uma vitória rápida dos Estados Unidos e de Israel, com uma mudança de regime em Teerã. Primeiro caiu o verniz ético que isso pudesse ter, depois as ilusões estratégicas.

Logo no primeiro dia de combate, os Estados Unidos bombardearam um colégio de meninas, matando centenas de estudantes. Depois, apesar de perdas consideráveis, os iranianos se provaram resilientes e foram capazes de fechar e manter o controle do estreito de Ormuz, destruir bases americanas no Oriente Médio, manter a marinha americana longe e evitar qualquer desembarque anfíbio.

Os efeitos sobre o mercado de petróleo foram devastadores, e ainda não são completamente conhecidos. Donald Trump trocou de posição infinitas vezes, desde clamar vitória antecipadamente, ameaçar destruir o Irã ou fechar um cessar-fogo que não foi obedecido por Israel no Líbano. Depois, o presidente americano se envolveu em uma boa dose de diatribes, com direito a atacar o papa Leão XIV.

O insuspeito The New York Times publicou um vazamento no qual se comprova que os ataques foram decididos em uma reunião clandestina na Casa Branca, na qual o premiê israelense Benjamin Netanyahu praticamente dirigiu o governo americano – confirmando as hipóteses de que é Israel, e não a Rússia de Vladimir Putin, que trata Trump como uma marionete útil, tudo por uma ampla gama de fatores.

O saldo do conflito, que pode cessar ainda que Israel contribua para a paz ficar mais distante, é um desastre para a economia americana – e isso já pode ser visto na opinião do eleitorado. Mas há questões que restam em aberto, e que podem apresentar uma piora, o que será fatal para Trump e os republicanos nas famigeradas eleições de meio de mandato, a serem disputadas em novembro deste ano.

Trump, o impopular

Até antes do ataque ao Irã, Donald Trump não havia descido abaixo do volume morto da atual política americana, isto é, a marca simbólica de 40%. A dura polarização entre republicanos e democratas, em grande medida fruto da ascensão do trumpismo, cria uma boia na qual ninguém desce abaixo de 40%, porque esse é o eleitorado de cada um dos polos – ou seja, republicanos e democratas mantêm a aprovação dos seus respectivos presidentes para honrar a bandeira.

Isso não significa que os republicanos realmente aprovem Trump, mas que eles sustentam um apoio formal como recusa aos democratas – e vice-versa. Estar abaixo de 40% de aprovação, ainda que por muito pouco, indica pontos abaixo do piso para qualquer presidente americana. A reprovação na casa de 56% mostra como os independentes, que são quem realmente definem as eleições, estão contra o atual presidente.

No mais, como aponta o estatístico Nat Silver, a intensidade da reprovação é maior do que a aprovação – poucos do declaram ainda apoiar Trump realmente consideram seu governo espetacular. A média ponderada por Silver das pesquisas sobre temas específicos, como a economia de um modo geral ou a inflação, nos ajudam a ver isso de forma mais clara, com o desempenho de Trump muito abaixo de sua média.

Não custa lembrar que sua vitória contra os democratas em 2024 se deu, precisamente, porque os eleitores entendiam que Trump poderia ir melhor “na economia” do que Biden – mas como insistimos neste mesmo espaço, em grande medida o fracasso econômico dos democratas se deu pelos efeitos colaterais, e deletérios, da Guerra na Ucrânia. Depois veio a paralisia diante do genocídio em Gaza, e a tampa do caixão de Biden/Kamala foi fechada.

Aqui, Trump também arrumou uma guerra desastrada para chamar de sua. O ataque ao Irã não é popular, seus efeitos imediatos menos ainda, mas seus efeitos de médio prazo podem ser mais tenebrosos ainda – e não apenas os eleitores podem ser surpreendidos, mas mesmo grandes players econômicos. O que será da economia americana nos próximos meses e como isso repercutirá na vida do país é a questão de um milhão de dólares.

O entrave iraniano

Trump tinha todos os motivos do mundo para não ir à guerra contra o Irã. Um conflito ali elevaria a inflação e abortaria sua obsessão em reduzir os juros – meta necessária para sustentar um mercado de ações aquecido, sobretudo no que diz respeito à farra da Inteligência Artificial. Os dados econômicos americanos, por sinal, já não parecem tão confiáveis, e revisões de cálculo, ironicamente, revelam cenários piores do que o divulgado inicialmente.

Derrubar o regime iraniano sempre foi uma questão israelense, ou melhor, algo incrivelmente popular em Israel e, portanto, necessário para um Netanyahu à procura de manter um estado de guerra permanente – enquanto o establishment de seu país segue empenhado em substitui-lo, menos por questões ideológicas e morais e mais pelo desejo de arejar o aparato governamental, puro jogo eleitoral.

Netanyahu já havia arrastado os Estados Unidos para a Guerra dos Doze Dias no ano passado, ao lançar um ataque ao Irã para envolver Washington no conflito. Trump bradou a espada, fez discursos inflamados, alguns ataques e pôs fim à contenda clamando vitória – para a decepção de Netanyahu, que esperava uma guerra duradoura para remover o regime iraniano, redesenhando a geopolítica da Ásia Ocidental.

O resultado da guerra atual é justamente o que Trump temia. Levando em consideração que os dados do último trimestre do ano passado foram revisados pra baixo, as coisas não parecem boas agora. Há dois problemas centrais: inflação, pressão por mais juros para reaquecer o mercado da dívida pública e o temor de que isso estoure bolhas na bolsa, onde as grandes corporações de Inteligência Artificial se financiam.

Por ora, Trump tenta de alguma forma encerrar o conflito clamando vitória e anunciando acordos que não existiram, como aquele sobre o urânio iraniano. Mas ele será o maior derrotado político se não sair disso logo. Pode ser que seja tarde demais para ele. Continuar brigando com o papa, seus próprios apoiadores ou divulgando artes indecorosas de IA não parece a melhor estratégia. Se Trump cair, ninguém vai chorar por ele.

(*) Hugo Albuquerque é jurista e editor da Autonomia Literária.

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