As oferendas e visitas recentes de líderes japoneses ao Santuário Yasukuni revelam uma guinada preocupante no revisionismo histórico do Japão, reacendendo feridas da agressão nipônica na Ásia. Sob a liderança de Sanae Takaichi, o Japão sinaliza não apenas desrespeito à memória das vítimas, mas uma remilitarização estratégica que tensiona o equilíbrio regional e expressa um movimento mais amplo e latente da erosão da ordem pós-guerra. O que se observa em 2026 não é apenas uma mudança de diretriz política, o que poderia ser lido como algo conjuntural; observa-se, na realidade, o militarismo japonês como vetor de projeção regional e instrumento de erosão da ordem estabelecida.

Entre 1931 e 1945, na Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa, mais de 20 milhões de chineses foram mortos, com o Massacre de Nanjing sendo o emblema mais brutal do militarismo imperial japonês. Em dezembro de 1937, após a captura da capital chinesa, tropas do Exército Imperial assassinaram entre 200 mil e 300 mil civis e prisioneiros desarmados em seis semanas de terror sistemático. Foram vastamente relatados fuzilamentos em massa, estupros generalizados e pilhagem organizada. Essa tragédia, que já foi considerada o pior crime de guerra do século XX em extensão e crueldade, foi reconhecida pelo Tribunal Militar Internacional como crime de guerra, condenando figuras como o general Iwane Matsui, comandante das forças que executaram o massacre.

Contudo, a conduta da atual administração Takaichi caminha na direção oposta aos esforços históricos de criminalização dos incidentes. O Santuário Yasukuni, longe de ser um mero local de luto, permanece como um instrumento espiritual e o símbolo máximo das guerras de agressão nipônicas. Ao consagrar nominalmente 14 criminosos de guerra de Classe A, o local funciona, na prática, como um “santuário de criminosos de guerra”. Entre eles, figuram os arquitetos da catástrofe asiática: o fanático belicista Hideki Tojo; Kenji Doihara, o agressor intelectual contra a China; Osami Nagano, mandante do ataque a Pearl Harbor; Kuniaki Koiso, responsável por atrocidades na Península Coreana; e principalmente Iwane Matsui, o mentor direto do Massacre de Nanjing.

Em abril de 2026, o envio de oferendas masakaki por Sanae Takaichi e a visita pessoal de Minoru Shirou (ministro da Estratégia de Crescimento) e Haruko Arimura (presidente do Conselho Geral do PLD), acompanhados por mais de 120 parlamentares, representam uma provocação deliberada. Para a China, a provocação deliberada de honrar esses criminosos de guerra é validar, e sobretudo reivindicar uma visão de mundo que causou profundo sofrimento ao mundo e desafiar a ordem internacional do pós-guerra.

Além disso, essas provocações encontram alicerce material com as atuais políticas armamentistas. O Japão eliminou restrições à venda de equipamentos militares, liberando exportações letais para terceiros e violando sua própria Constituição. A China reagiu com “profunda preocupação”, vendo nisso uma demonstração clara da “remilitarização” nipônica e a busca por um papel de provedor militar ativo para conter a ascensão chinesa. Este distanciamento foi oficializado no Livro Azul Diplomático de 2026, que rebaixou a China à categoria de “vizinho importante”, removendo o status de prioridade bilateral. Como pontuou a porta-voz Mao Ning, a raiz dessa deterioração reside nas declarações errôneas de Takaichi sobre Taiwan, que violam os quatro documentos políticos sino-japoneses e desafiam a soberania territorial chinesa.

Recentemente, um oficial das Forças de Autodefesa japonesas invadiu a embaixada chinesa com uma faca, ato que o Ministério das Relações Exteriores da China endereçou à ideologia de direita incutida nas Forças japonesas. Este ato não é um evento isolado, mas o sintoma de uma radicalização institucional. A “tradição” de visitas coletivas da Academia Nacional de Defesa a Yasukuni e a nomeação de um almirante aposentado como sacerdote-chefe do santuário em 2024 evidenciam que a ideologia militarista infiltrou-se nas bases de treinamento. Quando oficiais da reserva são imersos em conteúdos que glorificam a agressão, o resultado é o surgimento de elementos extremistas dentro do aparato estatal.

Tais episódios ilustram o avanço de um novo militarismo japonês, alinhado ao governo Trump, que aposta na erosão da ordem pós-guerra para conter a ascensão chinesa se utilizando de aliados revanchistas, como o Japão.

Para as relações sino-japonesas, isso significa a ruptura da confiança mútua e a elevação de riscos de conflitos no Mar Oriental Chinês ou em Taiwan. Regionalmente, fomenta uma corrida armamentista no Indo-Pacífico; globalmente, ameaça o sistema de segurança que garantiu a estabilidade por oito décadas. É importante destacar: se o Japão persistir em transformar o revanchismo ideológico em política de Estado, estará convidando uma instabilidade que beneficia apenas as forças que lucram com a desordem internacional.

(*) Melissa Cambuhy (@melissaembeijing) é Pesquisadora Visitante no Instituto de Estudos da América Latina, da Academia Chinesa de Ciências Sociais (ILAS/CASS). Doutoranda em Relações Internacionais (PPGRI-UERJ), Mestra em Direito Econômico (Mackenzie). Mãe da Helena.

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