Em 1980 o projeto Kalunga promoveu o intercâmbio entre músicos, poetas, pintores, políticos e outras personalidades brasileiras em Luanda, a convite do governo de Angola, que na época acabava de sair de uma guerra civil.
Brasil e Angola, então, se reaproximavam como dois irmãos separados no nascimento. O clima era de reconstrução, lá e aqui, já que também nos organizávamos coletivamente para a tão esperada redemocratização ao fim de uma longa ditadura militar.
Esperança era a palavra de ordem. Em Angola, o fim da Guerra Civil também marcava a libertação colonial de fato; no Brasil, a esperança era pelo retorno da democracia.
O clima hoje é muito diferente. Tanto em Angola, como no Brasil. Aqui, nossa luta segue sendo pela manutenção da democracia tão duramente conquistada e agora ameaçada pela oligarquia do conservadorismo e da extrema direita. Angola vive uma longa crise institucional, marcada pela corrupção e por acusações ao MPLA, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), partido político no poder em Angola desde a independência de Portugal em 1975.
Recentemente Angola recebeu a visita do Papa Leão XIV, visita essa amplamente questionada por setores da sociedade civil, especialmente por não ter havido transparência com relação aos gastos para a recepção do Santo Pontífice, que fez discursos pedindo paz e conciliação, já que o país segue dividido
Enquanto isso, o Brasil se vê no meio de uma mudança na geopolítica global, defendendo sua soberania em um contexto surreal no qual o presidente dos EUA busca reforçar sua influência no próprio “quintal”, que seria a América Latina.
O sonho da integração cultural entre Brasil e Angola, encabeçado pelo projeto Kalunga, em 1980, no entanto, parece ter se perdido em meio a tanta mudança. O continente mãe parece mais distante na medida em que nossa política externa (e a de vários países africanos de língua portuguesa) oscila entre o soft power chinês e a truculência diplomática norte-americana.
“Revisitar” Angola justamente no contexto atual representaria unir duas grandes potências irmãs na luta pela reafirmação do papel de protagonismo que o Sul Global pode exercer na geopolítica global.
(*) João Raphael (Afroliterato) é escritor, professor e mestre em educação pela UFRJ. É apresentador do programa “E aí, professor?” do Canal Futura.
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